20.10.04

Teoria do Caos

Pegar uma página em branco (ou no caso do computador, uma tela em branco), é uma das coisas mais complicadas que alguém que quer ser escritor pode fazer. Há aqueles escritores que produzem textos magníficos. Achamos que a pessoa em questão sentou na frente do papel (ou do computador) e simplesmente encostou a caneta (ou os dedos no teclado), e as palavras rolaram, escoando como uma torneira aberta.
Acredito que não seja bem assim.
A imagem que vem na minha mente é a de alguém parado por minutos (ou horas, no meu caso), de olhos fechados, vasculhando na mente a primeira frase, ou até mesmo a primeira palavra. Quando uma palavra surge, pedindo para ser escrita, o escritor em questão a analisa, observa, pega-a na mão, acaricia-a, e pondera se ela é a palavra perdida que ele procurava. Se não é, ela volta para o limbo da criatividade, até ser resgatada por ele, ou por outro. Em algum lugar, lá no fundo, deve haver uma pilha de palavras, ou de restos delas, no esquecimento. Uma imagem parecida com aqueles fossos de filmes de terror, cheios de ossos, crânios, retalhos de tecido, revelando um covil, residência de algum animal que se alimenta de palavras. Um dicionário, para ele, seria um banquete.
Criar um texto, independente do que seja, é com dar a luz a um novo universo. Moldar de uma massa caótica formas, cores, pesos, medidas, tempo e espaço. Planetas vão surgindo, passam a girar ao redor de estrelas, que não estavam ali há um segundo atrás. Não é uma tarefa de seis dias, para se descansar no sétimo. É mais rápido que isso. Apenas algumas horas e um novo mundo está coberto de significações, descrições e personagens.
A parte mais difícil, na minha humilde opinião, é a criação de seres que povoarão nosso novo mundo, recém descoberto. Não haverão caravelas vagueando sobre águas revoltas. Ainda não criamos ser algum. Ele não gerou descendentes.
Então, SHAZAM. Um ser novo, fresquinho, recém saído do forno, moldado em barro e com o sopro divino dentro dos pulmões, ainda não viciados pelo cigarro. Ou então, saído de dentro de um bloco de gelo, lambido por uma vaca até que derreta. O resto do gelo é colocado num copo com uísque escocês, mexendo e virando num gole apenas.
Vícios e virtudes deveriam ser encontrados neste ser. Mas ele é tão parecido com quem o criou, o escritor em questão, que este fica cego ao que ele pode oferecer. Deixa o personagem conduzir sua própria estória. E este conduzirá para um final tão trágico quanto sua cirróse ou seu câncer de pulmão. Afinal, ele é um ser humano, fruto de outro ser humano. E, talvez, o escritor seja apenas fruto da imaginação de alguém mais insano ainda.

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

20 de outubro de 2004 às 15:41  
Anonymous Anônimo said...

Me ha gustado este texto :-)
Claudia.

20 de outubro de 2004 às 15:44  
Anonymous Anônimo said...

Tens certeza que foi tu mesmo que escreveu isto???
Bem apesar das viagens...
Parabéns! Estas no caminho certo. Só não sei p/ onde. Talvez a loucura. He he he.
Ta mto bom.
Sério!!!!

Lu

25 de outubro de 2004 às 01:20  

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