20.10.04

Virtualidade

Este texto é uma livre adaptação de um roteiro que eu escrevi há muito tempo. O nome era "um pequeno romance pós-moderno". O roteiro saiu do papel, e virou um curta-metragem, pra uma disciplina da faculdade. Levou 10, e foi uma experiência gratificante.

No conto, eu mudei muita coisa. Diálogos, Personagens. O final é o mesmo.

Ele entrou no cybercafé. Nervoso, pediu uma xícara de chá. O garçom olhou para ele com uma cara de "trinta graus e esse cara me pede chá?!". Quente, bem quente, e sem açúcar.

O computador demorou para carregar. Quando o fez, a senha foi digitada por mãos trêmulas. Errou uma vez, duas vezes. Na terceira, ele digitou pausadamente, letra após letra. Acertou. A tela mudou para os títulos dos e-mails. Dezenas. "Malditas Listas de Discução" pensou ele.

Ele "virou" a página, apreensivo. Mas, depois de limpar a mente e se acalmar, lá estava aquele que ele estava procurando. Ele sorriu. Esqueceu o chá. Deixou esfriar, no lado do teclado.

Levantou, pagou a conta, e saiu. Tinha um encontro para ir.

***

Não sabia como ela era. Nunca tinha visto fotos. Apenas uma descrição. Morena, cabelos até os ombros. Ele tinha uma preferência por morenas, embora isso não importasse naquele momento. Tinha apenas o receio de que ela não gostasse dele. Na sua cabeça, a cena seria dela olhando para ele, virando as costas e indo embora. Mas ele sentou no bar, e esperou.

Chegou adiantado. Eram seis horas, e ela havia marcado seis e meia.

Esperar alguém que não se conhecia fazia o relógio andar para trás. O tempo se arrastava. Sua distração foi uma lata de refrigerante vazia, esquecida por alguém sobre a mesa. Retirou o lacre, torceu, arrebentou. Amassou a lata, arremessou no lixo.

- De três pontos - disse uma voz familiar atrás dele.
Ele virou-se, e encontrou um rosto familiar.
- Oi Rafaela. Senta ai.
Ela o fez. Era uma garota bonita, com olhos verdes sintilantes, e um sorriso que, apesar de metálico, era radiante.
- Parece nervoso. Esperando alguém, Arthur?
- Se eu te contasse, tu iria rir de mim.
- Tenta. O meu dia foi tão estressante que eu preciso de uma boa risada.
- Esse tipo de reação é a última coisa que eu preciso.
- Desculpe. Mas vai, conta ai.
- Eu to esperando alguém, sim. Mas alguém que eu nunca vi na vida. A gente se conheceu por e-mail. Ela quer me conhecer.
- Sei lá. Não sou a pessoa indicada pra falar sobre um encontro virtual. Nunca tive um.
- Como se tu precisasse.
- Por que eu não precisaria?
- Tu é uma guria bem decidida. Pelo que eu te conheço, não corre atrás de uma ilusão. É o que eu estou fazendo, esperando uma ilusão. Esperando que uma pessoa que eu nunca vi na vida seja a mulher da minha vida.
- A gente pode se iludir olhando nos olhos de uma pessoa. Quer que aquilo seja real, e não é. Talvez tenha mais realidade no teu relacionamento com uma pessoa que tu nunca trocou um olhar, um toque, um beijo ou um carinho, do que eu tive nos meus relacionamentos fracassados.
- Eu não sei. Tenho que esperar pra descobrir.
- Eu não vou te atrapalhar. Ela deve estar chegando. - Ela o beija no rosto. - Me conta depois como foi.
- Pode deixar.

Ela sai pela mesma porta que entrou, mas ele não vê, pois estava de costas.
Seis e meia. Ela está trasada. Sete, uma garota atravessa o corredor, passando rente ao lado dele. Morena, cabelos no ombro. O coração dele dispara. O nervosismo volta a tona.

Ela abre uma revista sobre a mesa. O garçom deixa um cardápio para ela.

No momento de impasse, Ele levanta-se. Espera que seja um movimento sem volta. Vai até a mesa dela.

- Oi.
Ela levanta os olhos, sorrindo.
-Oi.
- Esperando alguém?
- Pode ser - diz ela, timidamente.
- Deixa eu adivinhar. Teu nome é Ingrid.
- Não. Simone. - O sorriso desaparece. - Acho que não sou quem tu procuras.
- Tudo bem. Acontece.

Ele vira-se, tomando a direção da saída. Ao chegar na calçada, uma voz familiar o chama.

- Ela não apareceu, não é? - diz Rafaela, escorada na parede ao lado da porta do bar.
- Não.
- Essas coisas acontecem. - Ela engancha o braço ao dele. - Mas, te anima. Outra musa pode aparecer na tua vida. Quem sabe uma não virtual.

Os dois saem caminhando pela calçada. Seus braços continuam enganchados.

No curta, neste momento entrava a garota que Artur estava esperando. Ela vai até uma mesa, e pergunta a um cara se ele era o Artur. Imagens entrepostas com os créditos. E a música Segredos, do Frejat.