31.10.04

Silêncio

Não há nada lá fora. Sim, acredite em mim, foi apenas o vento, soprando entre as folhas das árvores. Ele brinca, se diverte, e depois vai embora. Não há com que se preocupar. Fecha os olhos, e deixa o silêncio invadir, quebrar o medo em partes, e aconchega tua cabeça no meu ombro.

Eu quero cantar pra ti, mas não sei. Só o silêncio me vem, me domina. Eu quero dormir, mas sinto teu coração bater. Parece bater dentro de mim, como se fossemos dois num corpo só, sozinhos no meio da floresta, ouvindo o vento rir.

Teu cheiro é o que me disperta. Posso ficar acordado a madrugada inteira, sentindo teu perfume,

29.10.04

Pôr-do-Sol



Sobre a bicicleta, ele olhava para o horizonte. Ainda cançado de seu exercício, ele tentava tomar fôlego, antes de voltar ao seu caminho. Olhou para o sol, que estava se pondo, e ficou admirando por alguns instantes.

Ela passou com os patins fazendo barulho contra o asfalto. Era tão bonita quanto a visão do entardecer. Parou junto a ele.

- Bonito, né - comentou ela.
Ele a olhou, sorrindo.
- Sim. Muito.

Ela sorriu para ele, e voltou a patinar.

E ele ficou lá, parado mais um tempo, revezando olhar para o pôr-do-sol, e para a garota que partia.

Adeus

Ela abriu a porta. Ele estava parado, olhar baixo, ombros caídos, desanimado. Ela deu espaço, e ele entrou.
- Tudo bem? - Ele pergunta, num tom monótono.
- Tudo. Tava te esperando. Preciso sair depois.
- Prometo que não vou demorar.
Ela foi para o quarto. Ele a seguiu.
Sobre a cama, várias peças de roupas arrumadas em pilhas, dobradas com cuidado. Camisas, calças, camisetas. Ele reconheceu-as.
Ao lado da cama, havia duas caixas, lacradas com fita adesiva.
- Tá tudo ai. As roupas, eu não guardei porque não sabia o que tu ia levar. O resto, está naquelas caixas.
- Obrigado. Eu vim mais por causa dos livros e dos discos. As roupas eu vou deixar pra ti. Doa elas. Tem alguém precisando mais do que eu nesse momento. E eu vou comprar novas.
- Tudo bem. Eu faço isso amanhã.
Ele apanhou as caixas e foi até a porta. Esperou que ela a abrisse. Ficaram se olhando alguns segundos, sem dizer nada.
- Acho que é um adeus - disse ele.
- Talvez não. Pode ser apenas um tchau - respondeu ela sorrindo.
- Talvez. Quem sabe.
E ele a beijou no rosto. E saiu. Ela fechou a porta, e a trancou.

28.10.04

Encontro

Ele olhou no relógio. Estava atrasado. Apenas alguns minutos, mas estava. Caminhou mais rápido, o coração começando a acelerar. Estava nervoso, começando a suar. Mas também estava feliz, começando a sorrir.

Ela esperava por ele, sentada no banco da praça, fingindo desatenção, revirando as folhas de um livro ao acaso. Trocava a posição das pernas, ora cruzando, ora esticando-as, ora balançando-as como um pêndolo. Levantou os olhos, e viu que ele se aproximava. Seu coração acelerou, mas ela sorriu. Continuou fingindo que não viu ele.

Ele a enxergou ao longe, sentada no lugar combinado. Ela estava distraída. Mas a simples visão dela o fez se arrepiar. Colocou as mãos nos bolsos, olhou em frente, e foi até ela. Não queria sentir medo, nem nervosismo, nem vergonha. Queria apenas ir até ela.

Ela o viu mais perto. E continuou fingindo que não o via.

Ele parou. Exitou. Vacilou. Foi para trás de uma árvore. Não estava pronto ainda. Apenas a observou. Ele a achava linda. Cabelos presos num rabo-de-cavalo, um vestido desbotado longo. Óculos escuros escondendo os olhos que ele sabia serem verdes. E ela apenas a observou, achando-a linda.

Ela o viu parando. Não entendeu que ele estava fazendo. Acho que tinha desistido. Sentiu-se só e vazia.

Mas ele tomou coragem. E retomou seu caminho. Parou ao lado dela. Sorriu. A primeira palavra sofreu para sair da garganta. Teimou em ficar. Ele a empurrou, forçou-a a sair.

- Oi - um oi tímido, baixo, sem vontade de ser dito.
- Oi - ela disse, baixando os óculos, e olhando direto nos olhos dele.
- Estava passando, e te vi aqui - mentiu ele. Sabia que ela sentava naquele lugar, no mesmo horário, para ler.
- Que bom que tu parou - falou ela. Ela sabia que ele passava ali, naquele horário, por isso sentava ali.
Conversaram amenidades, coisas sem sentido, mas que faziam sentido naquele estado de espírito em que ambos se encontravam. Até que olharam em seus relógios, e viram que muito tempo havia passado.
- Preciso ir - ele disse.
- Eu também - respondeu ela.
- A gente se fala - ele falou.
- Sim, a gente se fala qualquer hora - ela respondeu.
Ele levantou-se, seguindo seu rumo. Ela, foi para o lado oposto.

E tudo que ele queria naquele momento, era convidar ela para sair. Qualquer coisa, apenas queria estar com ela.

E tudo que ela queria era sair abraçada com ele, e seguirem na mesma direção.

27.10.04

Outras Fotos

Ele abriu o velho album de fotos. Empoeirado, estava fechado há muito tempo. Há muito tempo ele estava longe dela. Tempo suficiente para que ele casasse, tivesse dois filhos, uma casa na praia, uma promoção, um divorcio. E uma constante lembrança nela.

Pensou no que teria acontecido se tivessem ficando juntos. Se ele não saisse da escola, fosse para outra cidade. Se não tivesse deixado aquela paixão de criança, como se fizesse parte de uma outra vida, que agora não era a dele, mas era a que ele desejava.

Talvez não estivessem mais juntos. Talvez fosse realmente apenas uma paixão de criança. Daquelas que vão sendo contruídas com o primeiro olhar, o primeiro sorriso trocado, o "quebra-gelo" nervoso, sem saber o que falar, aonde colocar as mãos, para onde olhar. Então, o primeiro beijo. O segundo, inexperiente ainda. O terceiro, quarto, quinto. Tantos quantos era o desejo inocente deles.

Ele ainda se lembra de quanto tempo passaram de mãos dadas, olhando um pôr-do-sol ali, outro aqui, trocando promessas de que ficariam juntos para sempre.

A foto que ele tinha nas mãos, num presente que já parecia fazer parte da outra vida, foi a última. Estavam numa ordem cronológica. Ela, sentada num banco de praça, escondendo o rosto com os cabelos, desgrenhados. Mas ele amava aqueles cabelos. Ela dizia que estavam feios, que ela estava feia. Ele insistia, dizia que ela era bonita, queria que ela mostrasse o rosto. Mas não conseguiu. E tirou assim mesmo. A última foto.

Queria saber se seria a última. Que outras fotos teriam sido tiradas.

Paixão

Descobri que preciso de uma paixão. Quero sentir o gosto de um beijo, mesmo que roubado, enquanto os dedos se desgrudam e ela se vai, olhando para trás, sorrindo para mim, e mandando um beijo, daqueles flutuantes, atirados ao vento, com uma mão abanando.

Uma paixão que me tire o sono. Faça com que eu me remexa na cama, pensando no rosto dela, nos cabelos caídos nos olhos, escondendo um sorriso.

Tenho a necessidade de sentir um cheiro, um perfume, ouvir uma voz sussurada no meu ouvido, dizendo coisas que me arrepiem.

Encontrar um bilhete, escrito à mão, num lugar secreto. Abri-lo, e morrer um pouquinho, de felicidade. Palavras de paixão, que é o que eu quero sentir.

26.10.04

Embriaguez

A cabeça rola de um lado para o outro, num turbilhão de sensações, enquanto o corpo tenta acompanhar. Imagens giram, formam-se na mente, esperando tomarem forma, até que algo significativo apareça.

Deitado na cama, eu espero a tontura ir embora, mas ela não vai. O mal-estar fica rondando, como um gato à espreita da presa, até que eu desista e ele tome conta de mim. Mas não vou desistir. Me apego a formas que não param quietas. Vasculho na memória algo que faça elas me deixarem em paz. Mas nada me surge.

E, então, a imagem dela me aparece. E tudo fica calmo. Eu deito a cabeça para o lado, e durmo. Sonho com ela. Ela é minha embriaguez. Não sinto nada, apenas o limbo me rodeando.

24.10.04

Compatibilidade

Ele vive trabalhando. Quando não está trabalhando, está estudando. Quer ser um advogado famoso, ganhar muito dinheiro, ter o carro do ano. Já previu que vai se aposentar e ir morar numa praia paradisíaca, e que a casa vai ter uma varanda com vista pro mar.

Ela tem tempo para os amigos. Vive sorrindo e cantando. Chora com música de comerciais de tv, principalmente daqueles bonitinhos. Dorme tarde, e acorda mais tarde ainda. Estuda apenas em véspera de prova, quando estuda. Quer ser professora, ensinar história da arte.

Ele anda sempre bem vestido.

Ela é linda de qualquer maneira.

Ele gosta de musica popular brasileira e jazz.

Ela ouve quase tudo, principalmente bandas que ninguém mais conhece.

Ele se apaixonou na primeira vez que a viu. Ela, quando descobriu que ele gostava de gatos.

Na verdade, não têm nada em comum. Apenas o fato de amarem um ao outro.

21.10.04

Solitário no meio da multidão

Todos tem um lugar preferido para escrever. Alguns gostam de se isolar em casa, onde o barulho não os alcança, ou podem controlar aquilo que querem ouvir. Podem sentar na frente do computador, utilizar um editor de texto da preferência, ouvir uma musica que inspira, preparar uma bebida, e escrever até que não tenha mais o que ser dito.

Outros, preferem sentar num lugar barulhento, cheio de gente conversando, cheiro de cigarro, poder escolher o que beber, deixar a escolha do som à outra pessoa.

Escrever em casa pode ter suas vantagens (sossego é uma delas). Mas também pode ter desvantagens. Podem surgir textos melancólicos, devido à solidão, ou ficar entretido com alguma outra coisa que não seja o ato de escrever (jogar no computador, assistir tv, dormir mais cedo). E, muitas vezes, bate uma depressão sem tamanho.

A segunda opção não é diferente. Depende do gosto de cada um. Algumas pessoas se sentem mais inspiradas no meio de outras. Pode-se parar pra analisar uma figura, ver como se comporta, a maneira que fala, ou jeito que se veste. O la ruim é que pode-se ficar muito tempo apenas observando, e esquecendo de escrever.

Eu sou adepto da primeira maneira. Minha natureza é meio isolatória (se existe esta palavra... se não existe, o Aurélio podia colocar ela lá), por isso, muitas vezes fico em casa, e, eventualmente escrevo (quando não estou jogando no computador, assistindo tv, indo dormir mais cedo). Algumas vezes rende um texto interessante. Na maioria das vezes, surge algo discutivel.

Não sou adepto da segunda. Estou em fase de testes. Neste momento, este texto é produzido em um cybercafé. Está um pouco cheio, algumas pessoas jogando, outras lendo e-mails, outras em chats. E eu, escrevendo. Uma latinha de refrigerante acaba de ser aberta, com o barulho característico do lacre de metal sendo rompido, e o gás saíndo com muita pressão. Alguém digita algo no computador às minhas costas, freneticamente. Uma música brega sai das caixas de som. Acho que é bossa nova (sou adepto de Rock e Heavy Metal, quando se trata de MPB, estou bem por fora).

Eu, entre outras coisas, estou no Orkut. Vendo fotos de alguém que, um dia, foi o grande amor da minha vida. Isto, eu chamaria de solidão virtual.

Tatuagem

Apenas algo escrito por quem não tem nada pra fazer num laboratório de informática.

Ela usava uma blusa azul, mas ficava um espaço de pele nua, entre o cós da calça e a dita blusa. Não era maior que três centimetros. Mas ali se escondia o que mais chamou a atenção dele. Ela tinha uma tatuagem, negra, contrastando com a brancura da pele. Estava encoberta pela calça e pela blusa, não se revelava, mas não fazia questão de ser escondida.

Só então ele desviou o rosto para ela. Tinha cabelos negros, que iam até a cintura, entrepostos por algumas mexas coloridas. Virou o rosto. Era bonita. Olhos tão negros quanto seus cabelos.

Ela passou por ele, e ele sentiu seu perfume. Era adocicado.

A garota tatuada sentou-se, e a blusa subiu.

Era um cavalo-marinho.

20.10.04

Virtualidade

Este texto é uma livre adaptação de um roteiro que eu escrevi há muito tempo. O nome era "um pequeno romance pós-moderno". O roteiro saiu do papel, e virou um curta-metragem, pra uma disciplina da faculdade. Levou 10, e foi uma experiência gratificante.

No conto, eu mudei muita coisa. Diálogos, Personagens. O final é o mesmo.

Ele entrou no cybercafé. Nervoso, pediu uma xícara de chá. O garçom olhou para ele com uma cara de "trinta graus e esse cara me pede chá?!". Quente, bem quente, e sem açúcar.

O computador demorou para carregar. Quando o fez, a senha foi digitada por mãos trêmulas. Errou uma vez, duas vezes. Na terceira, ele digitou pausadamente, letra após letra. Acertou. A tela mudou para os títulos dos e-mails. Dezenas. "Malditas Listas de Discução" pensou ele.

Ele "virou" a página, apreensivo. Mas, depois de limpar a mente e se acalmar, lá estava aquele que ele estava procurando. Ele sorriu. Esqueceu o chá. Deixou esfriar, no lado do teclado.

Levantou, pagou a conta, e saiu. Tinha um encontro para ir.

***

Não sabia como ela era. Nunca tinha visto fotos. Apenas uma descrição. Morena, cabelos até os ombros. Ele tinha uma preferência por morenas, embora isso não importasse naquele momento. Tinha apenas o receio de que ela não gostasse dele. Na sua cabeça, a cena seria dela olhando para ele, virando as costas e indo embora. Mas ele sentou no bar, e esperou.

Chegou adiantado. Eram seis horas, e ela havia marcado seis e meia.

Esperar alguém que não se conhecia fazia o relógio andar para trás. O tempo se arrastava. Sua distração foi uma lata de refrigerante vazia, esquecida por alguém sobre a mesa. Retirou o lacre, torceu, arrebentou. Amassou a lata, arremessou no lixo.

- De três pontos - disse uma voz familiar atrás dele.
Ele virou-se, e encontrou um rosto familiar.
- Oi Rafaela. Senta ai.
Ela o fez. Era uma garota bonita, com olhos verdes sintilantes, e um sorriso que, apesar de metálico, era radiante.
- Parece nervoso. Esperando alguém, Arthur?
- Se eu te contasse, tu iria rir de mim.
- Tenta. O meu dia foi tão estressante que eu preciso de uma boa risada.
- Esse tipo de reação é a última coisa que eu preciso.
- Desculpe. Mas vai, conta ai.
- Eu to esperando alguém, sim. Mas alguém que eu nunca vi na vida. A gente se conheceu por e-mail. Ela quer me conhecer.
- Sei lá. Não sou a pessoa indicada pra falar sobre um encontro virtual. Nunca tive um.
- Como se tu precisasse.
- Por que eu não precisaria?
- Tu é uma guria bem decidida. Pelo que eu te conheço, não corre atrás de uma ilusão. É o que eu estou fazendo, esperando uma ilusão. Esperando que uma pessoa que eu nunca vi na vida seja a mulher da minha vida.
- A gente pode se iludir olhando nos olhos de uma pessoa. Quer que aquilo seja real, e não é. Talvez tenha mais realidade no teu relacionamento com uma pessoa que tu nunca trocou um olhar, um toque, um beijo ou um carinho, do que eu tive nos meus relacionamentos fracassados.
- Eu não sei. Tenho que esperar pra descobrir.
- Eu não vou te atrapalhar. Ela deve estar chegando. - Ela o beija no rosto. - Me conta depois como foi.
- Pode deixar.

Ela sai pela mesma porta que entrou, mas ele não vê, pois estava de costas.
Seis e meia. Ela está trasada. Sete, uma garota atravessa o corredor, passando rente ao lado dele. Morena, cabelos no ombro. O coração dele dispara. O nervosismo volta a tona.

Ela abre uma revista sobre a mesa. O garçom deixa um cardápio para ela.

No momento de impasse, Ele levanta-se. Espera que seja um movimento sem volta. Vai até a mesa dela.

- Oi.
Ela levanta os olhos, sorrindo.
-Oi.
- Esperando alguém?
- Pode ser - diz ela, timidamente.
- Deixa eu adivinhar. Teu nome é Ingrid.
- Não. Simone. - O sorriso desaparece. - Acho que não sou quem tu procuras.
- Tudo bem. Acontece.

Ele vira-se, tomando a direção da saída. Ao chegar na calçada, uma voz familiar o chama.

- Ela não apareceu, não é? - diz Rafaela, escorada na parede ao lado da porta do bar.
- Não.
- Essas coisas acontecem. - Ela engancha o braço ao dele. - Mas, te anima. Outra musa pode aparecer na tua vida. Quem sabe uma não virtual.

Os dois saem caminhando pela calçada. Seus braços continuam enganchados.

No curta, neste momento entrava a garota que Artur estava esperando. Ela vai até uma mesa, e pergunta a um cara se ele era o Artur. Imagens entrepostas com os créditos. E a música Segredos, do Frejat.

Teoria do Caos

Pegar uma página em branco (ou no caso do computador, uma tela em branco), é uma das coisas mais complicadas que alguém que quer ser escritor pode fazer. Há aqueles escritores que produzem textos magníficos. Achamos que a pessoa em questão sentou na frente do papel (ou do computador) e simplesmente encostou a caneta (ou os dedos no teclado), e as palavras rolaram, escoando como uma torneira aberta.
Acredito que não seja bem assim.
A imagem que vem na minha mente é a de alguém parado por minutos (ou horas, no meu caso), de olhos fechados, vasculhando na mente a primeira frase, ou até mesmo a primeira palavra. Quando uma palavra surge, pedindo para ser escrita, o escritor em questão a analisa, observa, pega-a na mão, acaricia-a, e pondera se ela é a palavra perdida que ele procurava. Se não é, ela volta para o limbo da criatividade, até ser resgatada por ele, ou por outro. Em algum lugar, lá no fundo, deve haver uma pilha de palavras, ou de restos delas, no esquecimento. Uma imagem parecida com aqueles fossos de filmes de terror, cheios de ossos, crânios, retalhos de tecido, revelando um covil, residência de algum animal que se alimenta de palavras. Um dicionário, para ele, seria um banquete.
Criar um texto, independente do que seja, é com dar a luz a um novo universo. Moldar de uma massa caótica formas, cores, pesos, medidas, tempo e espaço. Planetas vão surgindo, passam a girar ao redor de estrelas, que não estavam ali há um segundo atrás. Não é uma tarefa de seis dias, para se descansar no sétimo. É mais rápido que isso. Apenas algumas horas e um novo mundo está coberto de significações, descrições e personagens.
A parte mais difícil, na minha humilde opinião, é a criação de seres que povoarão nosso novo mundo, recém descoberto. Não haverão caravelas vagueando sobre águas revoltas. Ainda não criamos ser algum. Ele não gerou descendentes.
Então, SHAZAM. Um ser novo, fresquinho, recém saído do forno, moldado em barro e com o sopro divino dentro dos pulmões, ainda não viciados pelo cigarro. Ou então, saído de dentro de um bloco de gelo, lambido por uma vaca até que derreta. O resto do gelo é colocado num copo com uísque escocês, mexendo e virando num gole apenas.
Vícios e virtudes deveriam ser encontrados neste ser. Mas ele é tão parecido com quem o criou, o escritor em questão, que este fica cego ao que ele pode oferecer. Deixa o personagem conduzir sua própria estória. E este conduzirá para um final tão trágico quanto sua cirróse ou seu câncer de pulmão. Afinal, ele é um ser humano, fruto de outro ser humano. E, talvez, o escritor seja apenas fruto da imaginação de alguém mais insano ainda.