Estou na frente de uma página em branco. Minha proposta é preenche-la, não apenas com palavras, mas também com uma história, que faça sentido, que faça com que quem a leia pense sobre aquilo, pense sobre si mesmo e sobre o que fez da própria vida até agora. Mas, eu não pensei na minha própria vida até agora. Mas tudo bem.
Para uma história, a primeira coisa que eu preciso para contar uma história é saber sobre quem ela é. Não em questão de nome, mas na questão de o que ele quer. Ele precisa querer alguma coisa, que vai fazer ele se mover até o final da última linha, quando ele finalmente vai conseguir aquilo que ele busca. Ou ela, ainda não decidi. Como escrevi até agora sobre amor, na maioria das vezes, ou sobre o ato de se escrever sobre amor, essa vai ser mais uma crônica sobre o assunto. Mas uma crônica sobre como se escreve sobre amor.
Minha personagem é um homem, já que a maioria das vezes as mulheres são a personagem principal, quando se trata destes assuntos mais intimistas. Prefiro ser um pouco mais alternativo, escolhendo o menos óbvio. Mas, além de ser um homem, o que mais eu posso fazer ele ser. Alguém ocupado, que não tem tempo nem para si mesmo. Trabalha vinte horas por dia, trancado num escritório, em meio a papéis, documentos, pastas e pessoas que não lhe dão atenção. Ele pode ser um advogado, um contador, ou um administrador de empresas. Acho que Contador fica melhor, por que joga ele numa perspectiva mais racional em meio a uma história intimista.
Ele sai de manhã cedo, quase junto com o sol saindo no horizonte. Pega um metrô ainda não lotado, já que ele não gosta de muito contato com os outros. Desce na última estação da capital, caminha mais meio quilometro e chega até a portaria do prédio comercial aonde trabalha. Cumprimenta o porteiro com um balançar de cabeça. Ali, pega um elevador até o décimo sétimo andar. A secretária ainda não chegou. Ela sempre chega depois dele. Ele se acomoda na sua cadeira, daquelas reclináveis, conforme o peso que se joga nela, e coloca os pés sobre a mesa. É seu único momento de liberdade, até o final do dia.
Seus colegas de trabalho começam a chegar. Já estão acostumados com a presença dele antes de todos, que nem se importam mais. Fingem que ele não está ali. Na verdade, ele não tem amigo ali dentro.
Perto do pôr-do-sol ele pega suas coisas, enfia tudo numa pasta e volta pra casa, fazendo o caminho inverso da manhã. Assiste um pouco de televisão, e vai pra cama. Outro dia termina. E assim vai, numa rotina infindável.
Agora, é preciso quebrar essa rotina. Pegar o que ele não tem, e atravessar na sua frente, como um carro parado num cruzamento de uma linha de trem, com o trem vindo em sua direção. Neste caso não é um trem. Tudo que ele não tem é uma garota. Ele não ama ninguém. Mas vai passar a amar ela.
A primeira coisa que pode chamar a atenção dele nela é a beleza. O sopro da criação foi bem sucedido nela, pelo menos as olhos dele. Olhos azuis, cabelos castanhos avermelhados curtos, até os ombros, amarrados um pouco acima da nuca. Mas, o que vai chamar a atenção dele, realmente, é a tatuagem na nuca, deixada amostra pelo penteado. Talvez um símbolo japonês, algo na moda.
O lugar aonde ele vai enxerga-la tem que ser um lugar em comum. Como ele não frequenta lugar nenhum além do metrô, será no metrô então. Ela estará de costas para ele, segurando na barra de metal perto da porta. E descerá na mesma estação que ele. Mas sairá antes, e ele ficará desesperado para poder ver seu rosto. Mas não verá.
E isso acontece. E acontece novamente. Duas semanas seguidas. E o rosto dela é uma incógnita.
Agora, tudo que ele quer é ver seu rosto. Quer se apaixonar por um rosto que não enxerga. Ele a imagina de várias formas. Cada uma mais bela que a outra.
Mas, ele não enxerga. E tudo se aproxima do final da história.
Até que um dia ele consegue segui-la até as escadarias da estação. Mas, ele a vê nos braços de outro, num beijo caloroso. E, então, segue para seu escritório.