25.11.04

Escadaria

Eu a vejo sentada na escada, lendo poesias de um escritor cujo nome não consigo repetir. Está absorvida em pensamentos, imaginando os versos como numa fantasia.

Eu paro no primeiro degrau para observa-la. Dezenas de degraus nos separam, mas ela não nota minha presença.

Ela vira as páginas com delicadeza, numa suavidade envolvente, sem tirar os olhos das palavras escritas pelo autor, costuradas como um artesão da palavra.

E eu continuo subindo os degraus, olhando para ela. Mas, apenas olhando...

Cronica de Amores Perdidos

Estou na frente de uma página em branco. Minha proposta é preenche-la, não apenas com palavras, mas também com uma história, que faça sentido, que faça com que quem a leia pense sobre aquilo, pense sobre si mesmo e sobre o que fez da própria vida até agora. Mas, eu não pensei na minha própria vida até agora. Mas tudo bem.

Para uma história, a primeira coisa que eu preciso para contar uma história é saber sobre quem ela é. Não em questão de nome, mas na questão de o que ele quer. Ele precisa querer alguma coisa, que vai fazer ele se mover até o final da última linha, quando ele finalmente vai conseguir aquilo que ele busca. Ou ela, ainda não decidi. Como escrevi até agora sobre amor, na maioria das vezes, ou sobre o ato de se escrever sobre amor, essa vai ser mais uma crônica sobre o assunto. Mas uma crônica sobre como se escreve sobre amor.

Minha personagem é um homem, já que a maioria das vezes as mulheres são a personagem principal, quando se trata destes assuntos mais intimistas. Prefiro ser um pouco mais alternativo, escolhendo o menos óbvio. Mas, além de ser um homem, o que mais eu posso fazer ele ser. Alguém ocupado, que não tem tempo nem para si mesmo. Trabalha vinte horas por dia, trancado num escritório, em meio a papéis, documentos, pastas e pessoas que não lhe dão atenção. Ele pode ser um advogado, um contador, ou um administrador de empresas. Acho que Contador fica melhor, por que joga ele numa perspectiva mais racional em meio a uma história intimista.

Ele sai de manhã cedo, quase junto com o sol saindo no horizonte. Pega um metrô ainda não lotado, já que ele não gosta de muito contato com os outros. Desce na última estação da capital, caminha mais meio quilometro e chega até a portaria do prédio comercial aonde trabalha. Cumprimenta o porteiro com um balançar de cabeça. Ali, pega um elevador até o décimo sétimo andar. A secretária ainda não chegou. Ela sempre chega depois dele. Ele se acomoda na sua cadeira, daquelas reclináveis, conforme o peso que se joga nela, e coloca os pés sobre a mesa. É seu único momento de liberdade, até o final do dia.

Seus colegas de trabalho começam a chegar. Já estão acostumados com a presença dele antes de todos, que nem se importam mais. Fingem que ele não está ali. Na verdade, ele não tem amigo ali dentro.

Perto do pôr-do-sol ele pega suas coisas, enfia tudo numa pasta e volta pra casa, fazendo o caminho inverso da manhã. Assiste um pouco de televisão, e vai pra cama. Outro dia termina. E assim vai, numa rotina infindável.

Agora, é preciso quebrar essa rotina. Pegar o que ele não tem, e atravessar na sua frente, como um carro parado num cruzamento de uma linha de trem, com o trem vindo em sua direção. Neste caso não é um trem. Tudo que ele não tem é uma garota. Ele não ama ninguém. Mas vai passar a amar ela.

A primeira coisa que pode chamar a atenção dele nela é a beleza. O sopro da criação foi bem sucedido nela, pelo menos as olhos dele. Olhos azuis, cabelos castanhos avermelhados curtos, até os ombros, amarrados um pouco acima da nuca. Mas, o que vai chamar a atenção dele, realmente, é a tatuagem na nuca, deixada amostra pelo penteado. Talvez um símbolo japonês, algo na moda.

O lugar aonde ele vai enxerga-la tem que ser um lugar em comum. Como ele não frequenta lugar nenhum além do metrô, será no metrô então. Ela estará de costas para ele, segurando na barra de metal perto da porta. E descerá na mesma estação que ele. Mas sairá antes, e ele ficará desesperado para poder ver seu rosto. Mas não verá.

E isso acontece. E acontece novamente. Duas semanas seguidas. E o rosto dela é uma incógnita.

Agora, tudo que ele quer é ver seu rosto. Quer se apaixonar por um rosto que não enxerga. Ele a imagina de várias formas. Cada uma mais bela que a outra.

Mas, ele não enxerga. E tudo se aproxima do final da história.

Até que um dia ele consegue segui-la até as escadarias da estação. Mas, ele a vê nos braços de outro, num beijo caloroso. E, então, segue para seu escritório.

19.11.04

Tremor

Hoje eu acordei chorando. Meu corpo tremia. Achei que era frio, e fechei a janela. Deitei, e continuei tremendo. Achei que era fome, então abri a geladeira, e comi algo. E continuei tremendo. Achei que era de medo do escuro, acendi a luz. E continuei tremendo.

Tudo que fazia, continuava tremendo. Então, larguei tudo que tinha, apenas para ter um momento de tranquilidade. Andei quadras e mais quadras pela rua, até bater na tua porta. Agora não tremo mais.

18.11.04

Beijo

Ele se inclinou, esperando encontrar lábios sedosos, estampados num sorriso inocente, mas ao mesmo tempo experiente. O rosto dela parecia estar tão longe que a eternidade tomou conta do tempo, como um cometa atravessando o universo, anos-luz de distância um do outro.

O calor do toque tomou conta dos dois. Sem saber o que fazer com as mãos, ele segurou carinhosamente a cabeça dela, acariciando seus cabelos e sua nuca. Com a outra, afagava suas costas. Encontrou um lugar entre a saia e a blusa, de pele desnuda, e se deteve ali, arrancando arrepios dela.

Ela se abraçou nele, tão forte como se ele fosse fugir para longe, deixa-la ali sozinha, no meio de uma pista de dança escura, solitária e silenciosa, mesmo que o lugar estivesse abarrotado de gente, e a música estivesse num volume que beirasse o suportavel.

Mas, para eles, havia apenas os dois. E uma juventude exacerbada pela frente.

15.11.04

Cuba Libre e um Cigarro

Peço mais um copo de cuba para o bartender, sem gelo, como sempre. Das caixas de som, sai uma canção pop, falando sobre amor, como qualquer canção do gênero, onde o assunto principal da letra são amores perdidos, dores-de-cotovelos, paixões platônicas, e tudo que faça um ser humano sofrer, e que não se esconda por trás da lógica.

Meu copo de cuba é colocado na minha frente, enrolado num guardanapo de papel, molhado pela umidade do copo, com uma fatia pequena de limão boiando na superfície. Pondero se acendo ou não mais um cigarro. Decido não acender. Meu maço tem apenas um.

Pela décima segunda vez me pergunto o que estou fazendo aqui. Tinha prometido a mim mesmo que não viria mais. Mas, sou teimoso, e venho. Sento-me no mesmo banco alto, de frente para o espelho na parede atrás do balcão. Meus olhos por trás de meus óculos estão inchados, como se eu tivesse dormido e esquecido de acordar.

O banco ao meu lado está vago. Talvez ela sente ali, se vier. Se vier. Mas, nas outras vezes ela também não apareceu. Fiquei sentado bebendo cuba libre e fumando, olhando meus olhos inchados no espelho. Cena que se repete agora, e da maneira como eu sempre ajo, vai se repetir numa próxima vez.

Robert Plant agora ecoa no ambiente. Gosto dessa música, não é tão vazia quanto as que tocaram até agora. Quero ir para a casa, mas talvez seja melhor esperar a música acabar.

A porta de entrada, estilo saloon de velho-oeste, abre. Não me viro para olhar quem é. Espero entrar no meu campo de visão no espelho. Mas não é ela. É apenas outra garota. Nova, não deve ter mais do que dezenove anos. Usa um vestido longo, que me lembra os hippies dos anos setenta, e uma blusa de alça, que deixa suas costas nuas, revelando uma tatuagem grande, de algo que fico em dúvida entre uma flor ou uma mariposa. Ou uma mariposa em uma flor, mas não faria sentido. Ela é bonita, a garota. Cabelos escuros, cacheados, e olhos verdes escondidos por óculos de armação redonda.

Mas, não é ela quem eu espero. Pego meu casaco, sobre meus joelhos, viro minha cuba num gole apenas, saio, deixando dinheiro suficiente para a minha conta e uma gorjeta. Neste lugar, penso, não volto mais.

14.11.04

Apenas um "até mais"

Ele baixou os olhos, tentando segurar as lágrimas. A dor e o vazio eram grandes, tão imensos quanto a falta que seu amigo agora lhe faria. Doia mais por não ter tido a chance de dizer tudo aquilo que queria, na hora certa. Ter guardado para si, trancando na garganta palavras que fariam seu coração se libertar, mas que fariam a alma do outro ficar mais pura.

Eram amigos há tanto que ele achava que teria sido desde o início do tempo, muito antes de suas próprias existências, agora separadas pelo destino.

Não se sabe o que teria dito, nem como teria dito, mas sabia que teria sido a melhor coisa a fazer.

"Até mais, meu amigo", foi a unica coisa que conseguiu pronunciar, para uma pedra fria entalhada e encravada no chão. Era o máximo que podia fazer agora.

12.11.04

Flores

Ela abriu a porta para ir ao trabalho. Na soleira, sobre o tapete, um buquê de flores. Espantada, ela abaixou-se, tomo-o nas mãos e procurou por um cartão, ou alguma identificação de quem o enviou. Não havia nada, apenas a certeza de que a pessoa sabia de sua preferência. Flores do campo.

Três quadras adiante, um jovem caminhava ereto e confiante, como se tivesse vencido a maior batalha de sua vida, quando na verdade enfrentou apenas seu medo.

Praça

Todos os dias ele passava por aquele lugar indo para o trabalho. Caminhava apressado, quase sempre correndo alguns minutos contra o relógio. Muitos dias o sol nem havia nascido, estava despontando ainda no horizonte, e ele já estava caminhando pelos ladrilhos da praça.

E, todos os dias em que passava por ali, estava aquela velha figura curvada, sentada no banco da praça, alimentando os pombos com alguns grãos de milho velhos.

A curiosidade sempre esteve presente. Parar, puxar conversa com o velho, sentar-se ao seu lado, e ouvir histórias que aquele homem poderia ter para contar. Mas o tempo era seu inimigo, e ele não se permitia isso nem por um instante.

E continuava seu caminho, rumo ao seu ganha-pão.

10.11.04

Galetea

Moldei-a conforme meus desejos. Dei-lhe uma alma, da pureza das estrelas, tão brilhante quanto um raiar de sol num dia de primavera.

Não a fiz em barro, pois se quebraria ao meu primeiro toque. Nem em ouro, pois sua frieza logo a afastaria de mim. A fiz de pérolas, tão resistente quanto diamante, mas sem sua frieza.

Seus olhos roubei do oceano, num azul letárgico, profundo e sem igual. Me perdi tantas vezes olhando para eles, e me encontrei olhando para eles.

Sua voz era o canto dos pássaros. Dizia coisas belas quando abria os lábios, e quando os fechava, era bela por natureza. Seu rosto, um alívio para os males da alma, e um tormento para um coração apaixonado.

Dei-lhe a vida num sopro em sua boca. Seus olhos se abriram, e minha vida se tornou completa.

9.11.04

Helena

Tive, em sua figura, uma perdição de pensamentos. Perdi um reino inteiro, por uma luxúria. Vaguei em teus olhos, num oceano sem fundo, em meio a tempestades, raios e trovões.

Zeus não teve pena de mim. Castigou minha alma, rompeu minha coragem, e abriu meu coração. Entraste, agora não tem mais volta.

Morro, aos poucos, vendo meu reino queimar. Mas sei que morro pelo teu amor.

7.11.04

Um dia perfeito

   Ele saiu de casa cedo. Ventava um pouco, mas o sol acariciava seu rosto, um calor ameno e puro. Caminhou até a parada do ônibus, e como era domingo, uma condução demorou mas apareceu. Quinze minutos ele estava no metrô, indo em direção à capital.

   O movimento também era de domingo, com pessoas caminhando na Redenção, correndo, praticando exercícios, andando nos pedalinhos, tomando chimarrão, conversando. Ele a encontrou sentada no lugar combinado, tinha uma cesta e uma caixa de isopor. Estava lendo um livro, concentrada.
   - Oi - ele disse, quando se aproximou dela.
   Ela levantou os olhos e sorriu. Respondeu com também com um "Oi", mas manhoso, meigo. Ele sentou-se ao seu lado, aconchegou-se na mesma árvore que ela estava apoiada.
   - Quer comer agora?
   Ele olhou no relógio.
   - Não. Ainda está cedo. Mas, acho que a gente podia beber alguma coisa. O que tu trouxe?
   - Não sabia o que tu gostava de beber, então trouxe duas Cocas, duas guaranás e duas águas sem gás.
   - Fico com uma guaraná. - Ela estendeu a garrafa de 600ml para ele. - Ainda está gelada.
   - Eu coloquei bastante gelo antes de sair. Acho que vai manter até o fim da semana. - Os dois riram.
   - O que está lendo? - perguntou ele, olhando para a capa do livro.
   - Uma coletânea de poemas do Neruda. Poemas de amor.
   Ele olhou nos olhos dela.
   - Está apaixonada?
   - Ainda não sei. Mas poemas de amor nunca são demais. E tu, está apaixonado?
   - Se me sentir bem quando estou com uma pessoa, e quando não estou com ela, rezo para que a próxima oportunidade de estar chegue logo, e que, para poder ficar com ela, eu deseje ser outra pessoa, uma pessoa melhor, sim, eu estou apaixonado.
   Ela começou a ficar um pouco vermelha, mas continuou fingindo não se importar.

   Continuaram conversando até perto do meio-dia. Comeram o lanche que ela trouxe. Sanduiches de frango, alguns risoles, torta de bolacha, e dois bombons. Jogaram os pratos de plástico e as garrafas de refrigerante numa lixeira próxima.
   - Quer caminhar? - Ele perguntou.
   - Pode ser. Só preciso guardar isso no carro.
   - Eu te ajudo.

   Depois de guardarem a cesta e a caixa de isopor no porta-malas do carro dela, foram olhar as barracas do brique. Olharam as antiguidades, as pinturas, os artesanatos, as bijuterias. Quando se deram conta, era quase quatro horas da tarde.

   - Quer dar uma passada na feira-do-livro? - perguntou ela.
   - Quero.

   Caminharam até a Dr. Flores até a Andradas, e depois seguiram até a Praça da Alfândega. Várias barracas cobertas se amontoavam pela praça, de maneira organizada. Milhares de pessoas olhavam livros, pesquisavam preço, conversavam.
   Ele e ela se misturaram. Acharam alguns livros. Ela se interessou por alguns de poesia. Ele procurou nos balaios de livros usados por clássicos da literatura.

   Eram seis e meia, e eles se desvencilharam da multidão.
   - Tem que ir pra casa? - ela perguntou.
   - Ainda não. Posso ficar mais um pouco. Quer ir ver uma coisa?
   - O que?
   - Vem comigo.

   Ele a levou até a usina do gasômetro. Subiram até a sacada com frente para o Rio Guaiba. O sol estava começando a encostar no horizonte.
   - Eu já vi esse pôr-do-sol duzias de vezes, e cada uma é diferente - ela falou, encantada com o espetáculo natural.
   - Essa vez, pra mim, é especial.
   Se olharam direto nos olhos, se inclinaram, e, por final, o beijo. Um beijo tímido, mas demorado, que durou rápido demais para eles, que ansiavam por mais.

   Quando ele chegou em casa, num domingo destes, tinha a impressão que aquele tinha sido um dia perfeito. Simples, mas perfeito. Quando girou a chave na porta, tinha um sorriso nos lábios, e o coração leve como uma pluma.

Caminho das Flores

Esta noite eu sonhei com você. Que caminhavamos, de mãos dadas, por um caminho de flores. Era uma praça, crianças brincando, correndo ao nosso redor. Mães conversando, sentadas nos bancos, olhando para seus filhos. E nós, continuavamos caminhando, nossos dedos continuavam entrelaçados, como se fossem da mesma pessoa.

Fontes disparavam água para todos os lados. Seu rostou ficou molhado. Mas eu apenas me lembro do teu sorriso, teus olhos brilhantes, escondidos por mechas de cabelo.

Me inclinei para um beijo, mas você não estava mais lá. Eu estava sozinho, em meu quarto, vazio, frio.

Levantei-me. Desliguei o ar condicionado. Olhei por uma fresta na cortina, e chovia lá fora.

Deitei, e esperei o sono voltar, para poder sonhar com você.

5.11.04

Dança Cigana

Ela move seu corpo com agilidade, no compasso da música. Seus passos seguem um frenezi incessante, como se seus pés fossem animais caçando, a espreita de uma presa.

Todos ao seus redor são seus criados, seguindo-a com os olhos, prontos para oferecer a vida à ela por um pouco de atenção. Ela sorri, seus lábios transbordam sensualidade, tom de sangue, rubro, metálico.

Os acordes da música são um transe, da qual ela não consegue sair. Só pode dançar, dançar, até o dia amanhecer. E ninguém tira os olhos de seu corpo, em movimentos harmoniosos, de exaltação e de paixão.

4.11.04

Inspiração

Tudo a minha volta é razão para imaginar. Vejo as pessoas que me rodeiam, concentradas em suas tarefas, e fico tentando descubrir o que tanto pensam.

Ouço conversas, que me instigam a viajar sem me mover, caminhar por entre as palavras, observar fatos sem nunca ter visto.

Inspiração é o fogo que arde, fazendo com que eu queime até me submeta a descrever tudo aquilo que eu vi, mas que não existe. É o sopro da criação, são as asas da percepção.

É o que me faz ser quem sou, ou que me faz mudar o mundo ao meu redor, sem que os outros percebam.

3.11.04

Transito

Com o ar condicionado ligado, ele ouvia blues no cd, e acompanhava a bateria batendo com os dedos no volante. Tentava esquecer que estava preso em um engarrafamento, e que levaria horas até conseguir chegar em casa.

Seu dia não tinha sido bom. Reunião no começo da manhã, uma discução com o sócio, um almoço com possíveis clientes, que não decidiam o que realmente queriam. Sua tarde não havia sido agradável também. O gerente do banco ligou, relatando que a conta corrente havia entrado no vermelho. Saiu no horário de costume, mas, por causa de um acidente, seu caminho para casa estava interrompido.

Olhou para a fila enorme de carros, e sabia que tão cedo não sairia do lugar. Tirou o paletó, afroxou a gravata, e sabia que não podia fazer mais nada.

Dez minutos depois, o carro a sua frente andou. E voltou a parar. Ele ergueu o corpo para tentar enxergar o que estava acontecendo. E a fila se estendia por centenas de metros.

A fila ao seu lado andou. Lembrou-se de uma das leis de Murphy.

Um carro parou ao seu lado. Uma mulher dirigia. Parecia concentrada em algo. Ele a achou bonita, talvez até demais para um cara como ele. Ela olhou para ele, talvez sentindo que estava sendo observada. E sorriu.

Ele ficou vermelho, e virou o rosto para a frente. E sorriu para si mesmo.

Ninfa

O olhar perdido na floresta, refestelando-se sobre uma rocha, deixando a água escorrer sobre seu corpo. Era linda como a filha de um deus, brilhava na luz do dia. Um ser imortal, que me fora proíbido amar, e mesmo assim, eu amei.

Minha maldição seria apenas olhar, ser ofuscado pelo seu brilho, tocar sem ser tocado, beijar sem ser beijado, amar, numa paixão sem ser correspondido.

Eu sou as águas onde ela se banha. Eu sou o rio que sussura palavras em seu ouvido, esperando que ela me ouça.

Eu te amo, mas não espero que note. Essa é minha maldição.

1.11.04

Chuva

Ouvindo a música "Crying in the Rain" do A-ha

Não quero te deixar. Meu coração está partido, me doi pensar em ir, não te ver mais. Eu choro por tudo isso, e meus olhos estão vermelhos.

Nestes dias chuvos, tu é meu sol. Mas agora, a chuva lava minhas lágrimas embora, e parece que está tudo bem.

Mas eu estou morrendo por dentro. Não quero mas sofrer, quero me libertar de ti, deixar-me ser levado pelo destino, em águas que eu nunca estive.

Quero apenas te esquecer. E deixar a chuva molhar meu rosto.

Resposta

Quero uma resposta, mas seus olhos não me dizem nada. Ficam mudos, numa profundidade azul, quase inertes. Me olham, me julgam, deixam cicatrizes na minha pele. Mas, a resposta que eu tanto anseio não vem, me tortura, me enloquece. Meu coração bate, salta, acelera, e tua mudez me preocupa.

Não sei o que quero saber. Não sei se quero saber. Mas preciso saber.

Diga-me. Olha-me. Meu tempo não é eterno. Talvez eu morra com o que tem pra me dizer. Talvez eu chegue ao paraíso depois de saber. Deixa eu te tocar, deixa eu te beijar. Deixa apenas eu ser feliz.