22.4.05

Momento (Moment in a million Years - Scorpions)

Iniciando a Série "Sons Letárgicos", de escritos baseados em músicas, esta é A Moment in a Million Years, do Scorpions.

As luzes vão diminuindo lentamente. Não vejo mais nada a minha frente, não há mais ninguém, apenas você e eu. Vejo seus olhos olhando para mim, numa distância tão grande que parece impossível alcançar.

Não ouço mais nada, apenas a minha voz. Não ouço a multidão me acompanhar. Vejo os teus lábios se movendo, poesia em forma de música. As batidas da bateria não existem mais. Agora eu sinto apenas meu coração, e dito meu ritmo por ele.

Eu te vejo sorrir, mas também te vejo chorar. A noite está acabando. Nada mudou, porque nada começou, e nada vai terminar. Logo você vai voltar para casa, e eu vou te deixar. As luzes vão se acender, e vai ser tudo que eu tenho pra te dar, um momento em um milhão de anos.

O ônibus está esperando lá fora. Eu vou voltar para a estrada, perseguir mais um sonho esta noite. Eu não vou esquecer deste momento. Nem em um milhão de anos.

20.4.05

Galáxia

Gotas de átomos explodem na vastidão e no vácuo, entre espaços ilimitados de nada. Esferas de energia vagam, chocando-se umas nas outras, atraídas por sí mesmas e em busca de um significado para sua própria existência.

Cores borbulham sobre o negrume da escuridão. Azul, amarelo, cinza, verde. Numa aquarela uniexistencial. Sem concepções ou ilusões.

Viagens a velocidade da luz. Rompantes de milésimos de segundo, de nenhum lugar para lugar algum. Planetas passando, inertes no meio da gravidade, iluminados por sóis, escurecidos por luas.

A eternidade esperando pela frente, sem destino, apenas vontade de ir.

Vertigem

Ele caminhava entre as pessoas. A música estava alta, quase não podia ouvir os próprios pensamentos, abafados por uma constante batida ritmada. Música eletrônica, abominava. O cheiro do cigarro invadia sua narina, grudava sobre sua pele, deixava vestígios em sua roupa.

As pessoas o empurravam, num ato que pensavam ser algo parecido com dançar, frenéticos, desalinhados e sem coordenação. Alguns tentavam acompanhar a música. Outros já estavam mais entorpecidos pelas substâncias que haviam ingerido, não se importavam mais com o que acontecia ao seu redor.

Ele tentou chegar até o bar. Demorou, ia empurrando quem estava na sua frente, com medo de alguém lhe olhar torto e tentar puxar briga. Mas, naquele momento não se importava. Tudo que queria era sair dali. Era cedo, ele ia ficar um pouco mais. Não tinha acontecido tudo que ele gostaria.

Sua cabeça começava a trabalhar na mesma batida da música, e isso atrapalhava seus pensamentos. Parou de pensar. Apenas olhava para dentro do copo de absinto, na sua frente, imerso na vastidão transparente do líquido gelado no copo de cristal. Falso, mas ainda assim parecia ser cristal.

Ela sentou-se no banco ao lado dele. Deu sorte, pois com uma casa cheia daquelas, um banco vazio só poderia significar sorte. Fez sinal para o garçom. Também pediu absinto. Pouco gelo, como o dele. Ainda não haviam trocado olhares. Ele ainda ignorava a presença dela. Ela estava preocupada em pegar de volta sua consumação, que o garçom ainda não havia devolvido.

Então... Sempre há um então nestes casos... Então ele olha para ela, de canto de olho, sem muito entusiasmo. Mas se entusiasma com a visão do rosto angelical dela. Contrastava com a tatuagem estampada nas costas nuas, em formato de um dragão chinês.

Era a primeira coisa boa que acontecia naquela festa. Ele estava lá para acompanhar um amigo, que agora estava de amassos com uma garota, num canto escuro da pista. Ela, queria apenas sair de casa, desopilar.

Ela olhou para ele, e sorriu. Gostou do jeito dele.

E, para ele, agora a música não era mais chata. Tudo que ele ouvia era a voz dela. Falando, falando... Sobre tudo.

9.4.05

Amores em tempo de internet

Eram três da manhã quando ele ligou o computador. Esperou pacientemente pelos três minutos que a máquina levava para iniciar. Não tinha sono, havia bebido três xícaras de café antes da meia-noite. Precisava digitar algumas coisas, documentos, trabalhos, e-mails. Tarefas, tarefas, tarefas...

Mas não tinha vontade para fazê-lo. Acessou o navegador da internet, e ficou lendo as últimas notícias. Pouca coisa lhe chamou a atenção. Não se interessava por política, economia, esportes. Alguma coisa de cultura, cinema, música. E começou a pensar no tempo que já fazia sem ir ao cinema, ou a um show, peça de teatro.

Começou a pensar que havia trocado muita coisa pelo trabalho. Mal tinha tempo para alguns amigos, meia hora de cerveja e conversa jogada fora uma vez por mês. Cronometrada, a meia hora. De resto, era escritório, casa, escritório, casa. Tinha um bom emprego, uma bela casa comprada com o seu salario. Um carro novo todo ano, nos últimos oito anos. E acordava todo dia as quatro da manhã com gastrite. Estresse, diria o médico na última consulta.

Viva sozinho. Não tinha ninguém para compartilhar alguma coisa boa da vida. Não tinha motivos para ter algo bom na vida. Decidiu que iria se didicar mais a própria vida que ao trabalho. Não faria mais horas extras, nem trabalharia em casa. Sairia mais, teria mais tempo para se divertir. E decidiu que também iria encontrar alguém. A vida sozinho não tinha tanta graça quanto ele achava que teria.

Na sua frente, o computador acusava algumas propagandas. Uma delas era de um site de encontros. Ele se cadastrou rapidamente, colocando alguns dandos, deixando outros de lado. Passou a procurar entre os outros usuários alguém que lhe chamasse a atenção.

Todos os dias ele entrava no site. Via se tinha recebido alguma mensagem. Mandava algumas para algum perfil que achava interessante. Até que recebeu uma. De uma mulher que morava na mesma cidade que ele. Que tinha se identificado com os gostos dele. Começaram a trocar e-mails. Foram se conhecendo virtualmente.

Agora ele não ia mais apenas para o trabalho, e de volta para casa. Algumas vezes, depois do horário de expediente, ia para algum café, ou bar. Assistia filmes, mesmo sozinho. Ou ia para casa, ouvia música. Sua coleção de cds estava aumentando aos poucos.

Seus colegas de escritório também estavam notando uma pequena mudança. Passou a notar mais com quem trabalhava, inclusive aquela morena que tinha uma sala ao lado da sua. Trocavam olhares diariamente, quando se cruzavam nos corredores.

Em casa, ele continuava trocando mensagens com a mulher do site. Descobriram-se parecidos. Em gostos, desgostos, qualidades e defeitos.

Um dia, resolveram se encontrar. Marcaram um lugar que coincidentemente frequentavam. Mas ele ficou com medo, e não foi. Não estava mais acostumado com estes jogos de sedução. E, se ele soubesse, que ela não tinha ido também.

No escritório, resolveu se arriscar, e convidou a colega de trabalho para sair. Ela aceitou, não sem antes fechar o programa de e-mail, onde mandava uma mensagem para alguém, perguntando porque ele não havia ido no encontro marcado na noite anterior, em um café no centro da cidade.